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Por Gabriel Bertoncello

Na medicina, o transtorno afetivo bipolar é descrito por ciclos patológicos de oscilação entre euforia e depressão. O paciente, incapaz de manter-se em estado eutímico — o equilíbrio saudável do humor —, ora mergulha em delírios grandiosos, ora sucumbe a temores paralisantes. Sua identidade acaba reduzida ao diagnóstico, e sua realidade, distorcida pela lente da doença. Guardadas as proporções, o Brasil vive hoje um cenário semelhante. O chamado debate político brasileiro assumiu a forma de um transtorno de humor, no qual a sociedade oscila entre idolatria irracional e ódio paranoico, entre Lula e Bolsonaro, como se o destino da pátria estivesse contido em duas caricaturas. É, portanto, um quadro de distorção coletiva que empobrece o debate, reduz o país a uma falsa dicotomia e transforma cidadãos em massa de manobra.

O senso comum repete, como se fosse dogma, que estamos polarizados. Mas não é difícil perceber a farsa. De um lado, um ex-presidiário sindicalista que encarnou o socialismo clássico, ainda que de forma rudimentar e pouco sofisticada, e um projeto de poder personalista embalado em retórica populista. Do outro, um capitão intempestivo que, longe de encarnar o conservadorismo sólido, transformou-se em símbolo de rejeição ao outro polo, sustentado muito mais por paixões que por princípios. Reduzir a política brasileira a esses dois nomes é não apenas uma simplificação grosseira, mas um engano perigoso que destrói a possibilidade de debate honesto sobre ideias e projetos de nação. Chamar isso de polarização é como chamar febre de doença: um diagnóstico simplório que ignora as causas profundas.

Tal como no transtorno bipolar, pode-se haver alternância entre delírios de grandeza e paranoias persecutórias. A cada eleição, parte da população se comporta como se estivesse em estado maníaco: acredita em messias políticos, em promessas de redenção, em soluções milagrosas. Logo depois, mergulha em um estado depressivo: teme o fim da democracia, o colapso das instituições, a destruição do país. Falta-nos o estado eutímico, o equilíbrio racional de quem discute ideias em vez de ídolos. Assim, a sociedade se aprisiona em um ciclo de oscilações artificiais, incapaz de enxergar alternativas mais complexas e maduras.

A caricatura da bipolarização serve apenas para aprisionar o Brasil em um teatro de torcidas. Entre liberalismo, conservadorismo, socialismos variados, anarquismos e visões religiosas, existe um vasto espectro de possibilidades. Entretanto, essa situação não é apenas culpa de políticos mal-intencionados. A própria sociedade é corresponsável. O brasileiro médio tem aversão a estudar política, história e filosofia. Muitos consideram esses temas fonte de desânimo, difíceis ou sem utilidade prática. Essa negligência intelectual alimenta o ciclo da ignorância. Sem compreender a realidade política, as pessoas se tornam vulneráveis a discursos fáceis e demagógicos. O resultado é um povo que se ilude com salvadores da pátria e aceita ser usada como massa de manobra por aqueles que desejam o poder a qualquer custo — em grande parte, políticos da esquerda que dominam a retórica da vitimização e da dependência estatal.

A ausência de estudo e reflexão faz com que muitos rejeitem a política como algo sujo ou sem esperança, quando, na verdade, agir politicamente é da natureza humana. Fugir desse dever não é neutralidade, mas omissão. E a omissão é sempre terreno fértil para o avanço do mal. Ao se afastar da política, o cidadão perde consciência de seu papel, esquece sua responsabilidade e cede espaço para narrativas que dividem a sociedade em polos artificiais. Essa negligência reforça a doença coletiva, permitindo que o povo se mantenha refém de líderes que pouco ou nada representam em termos de ideologia consistente.

É nesse vazio de responsabilidade que floresce a ilusão da “terceira via”. Muitos se vangloriam de não serem “nem Lula, nem Bolsonaro”, como se isso fosse sinônimo de maturidade. Mas em grande parte, trata-se apenas de apatia disfarçada. O muro sempre tem dono. Quem controla a mídia, as universidades e as instituições é quem molda o muro e atrai os lenientes que nele se refugiam. O centro, longe de ser o espaço da racionalidade, tornou-se refúgio confortável dos que não querem se comprometer.

O resultado é uma sociedade que troca projetos de nação por slogans, princípios por paixões, ideias por ídolos. Enquanto a massa grita “mito” ou “companheiro”, os verdadeiros problemas se arrastam: corrupção sistêmica, hipertrofia estatal, erosão cultural, insegurança pública, degradação moral e violação constante das liberdades individuais. A falsa polarização é útil justamente porque mantém os olhos da população fixos no espetáculo vazio, enquanto nos bastidores a máquina avança. Como escreveu Edmund Burke: “Quando homens maus se unem, os bons devem se associar; caso contrário, cairão um a um, como sacrifício desprezado numa luta desprezível.”

Não se trata de negar o valor do posicionamento político. Ao contrário: urge resgatá-lo e o que falta ao Brasil é justamente posicionamento autêntico. A disputa entre esquerda e direita é legítima e histórica, mas não pode ser reduzida à paródia de dois personagens mal-ajambrados. É o estudo sério da filosofia, da política e da história que ilumina as diferenças verdadeiras entre ideologias. Posicionar-se não é polarizar: é reconhecer divergências reais e lutar por princípios sólidos como liberdade, virtude e responsabilidade.

O transtorno afetivo brasileiro não será curado com neutralidade. A terapia exige esforço e disciplina: estudar, compreender o passado, discernir discursos falaciosos, assumir posições fundamentadas. Nesse sentido, assim como o paciente bipolar precisa de medicação e acompanhamento para encontrar estabilidade, a sociedade brasileira precisa de conhecimento e coragem para reencontrar seu estado eutímico. É preciso restituir à política sua dignidade de espaço de ideias, e não de paixões irracionais. Como disse Maquiavel, a política deve ser encarada tal como é, e não como desejaríamos que fosse: “E muita gente imaginou repúblicas e principados que nunca serviram nem jamais foram reconhecidos como verdadeiros. Vai tanta diferença entre como se vive e o modo por que se deveria viver, que quem se preocupar como o que se deveria fazer em vez do que se faz aprende antes a ruína própria, do que o modo de se preservar”. Portanto, somente ao aceitar sua natureza realista podemos tratá-la com lucidez, e não com delírios.

Nessa perspectiva, a conduta terapêutica não é o silêncio, porém o engajamento consciente. Não é a neutralidade, mas a responsabilidade moral. É assumir que cada escolha política molda não apenas o presente, mas o legado às futuras gerações. É resgatar as virtudes que sustentaram a civilização ocidental: disciplina, honestidade, fé, coragem e amor à liberdade. Enquanto persistirmos na preguiça intelectual, estaremos condenados a oscilar entre manias e depressões políticas. Ao passo que aceitarmos que divergência democrática é sinônimo de polarização, viveremos prisioneiros de uma doença social que empobrece nossa democracia. A saída está no estudo, no posicionamento consciente e no resgate da política como espaço de virtudes.

Este é o desafio colocado diante do corpo social: superar o transtorno afetivo brasileiro. É hora de abandonar a oscilação irracional entre polos artificiais e retomar a lucidez de uma nação que não teme a divergência, mas a valoriza como motor da liberdade. Como advertia C. S. Lewis, a partir de uma paráfrase popular: “dos tiranos sinceros, nos salvamos; dos tiranos bem-intencionados, nunca”. Dessa forma, devemos romper com os ciclos patológicos vigentes ou permaneceremos reféns da doença coletiva que insiste em reduzir uma civilização inteira a um duelo de torcidas. Só assim deixaremos de ser um país aprisionado pela pseudo bipolarização para nos tornarmos uma nação consciente de seu destino e digna de sua própria história.

REFERÊNCIAS American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: 5th Edition, Text Revision (DSM-5-TR). Arlington, VA: American Psychiatric Publishing, 2022.

World Health Organization (WHO). International Classification of Diseases 11th Revision (ICD-11): Mental, behavioural or neurodevelopmental disorders. Geneva: WHO, 2022. Disponível em: < https://icd.who.int/browse/2025-01/mms/en#334423054> Acesso em: 07 set 2025

BURKE, Edmund. Thoughts on the Cause of the Present Discontents. Londres, Paris, Nova York e Melbourne: Cassell & Company Limited, 1886.

LEWIS, C. S. God in the Dock: Essays on Theology and Ethics. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1970.

SCRUTON, Roger. How to be a Conservative. Londres: Bloomsbury, 2014.

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Tradução de Lívio Xavier. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

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